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O País dos Cegos é Aqui

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Sandra Boschilia
Sandra Boschilia
Sou Advogada, Operadora do Direito e Jornalista pelas Faculdades Metropolitanas Unidas e Universidade Nove de Julho. Coordenadora para Assuntos Institucionais e Assessoria de imprensa do Instituto Pro Cidadania em prol das Pessoas com Deficiência. Palestrante. Escritora e Autora de Romances Históricos e Biografias. Livros de poesia e arte premiados no Sul do Brasil. Meta: Informar e Resgatar boas memórias do Esporte. Sonhar é o Objetivo e Conquistar uma Certeza.

“No país dos cegos, quem enxerga é o estranho.”

Quando li O País dos Cegos, de Wells, pensei tratar-se apenas de uma boa história fantástica.
Um vale isolado, cercado por montanhas intransponíveis, onde todos nasceram cegos, e haviam varias gerações.
O tempo fez desaparecer não apenas a visão, mas a própria ideia de enxergar.
Os olhos continuavam nos rostos, mas perderam qualquer significado.
A linguagem já não possuía palavras para explicar a luz, as cores ou o horizonte.
Até que um homem vindo das montanhas caiu naquele lugar.
Ele via, enxergava cores e sabia a tonalidade exata.
Via o céu.
Via o nascer do sol.
Via as estrelas.
Via os precipícios.
Via os caminhos.
Imaginou até que seria respeitado por possuir aquilo que todos haviam perdido.
Mas para sua decepção descobriu exatamente o contrário.
Foi tratado como um louco.
Se ninguém via, então ver era uma doença! (?)
Os médicos daquela pequena comunidade chegaram à conclusão de que os olhos daquele homem eram a origem de seus delírios.
Bastaria portanto arrancá-los para que ele voltasse à normalidade.
Sempre achei que Wells escrevia ficção.
Hoje já não tenho tanta certeza.
Às vezes penso que ele apenas escreveu sobre o Brasil… um século antes de existir o Brasil que conhecemos.
Vivemos cercados de escândalos que duram uma semana e depois desaparecem como fumaça, ou são desmentidos sem qualquer rubor ou vergonha.
Mudam-se os personagens.
Mudam-se os partidos.
Mudam-se as promessas.
Mas permanece a mesma estranha tranquilidade coletiva.
A cada eleição, o país parece indignar-se.
Logo depois, acostuma-se.
É curioso perceber como nos tornamos especialistas em normalizar o absurdo.
Quando um hospital não funciona, dizemos que “sempre foi assim”.
Quando uma escola desaba, afirmamos que
“é culpa de governos anteriores”.
Quando impostos aumentam, explicam que
“não havia alternativa”.
Quando surgem denúncias, logo aparece uma torcida organizada para defendê-las, como se a ética tivesse lado político.
E assim seguimos.
Não enxergando.
Ou talvez fingindo não enxergar.
Porque há uma diferença enorme entre não possuir visão e recusar-se a abrir os olhos.
No conto de Wells, ninguém era perverso.
Eis o aspecto mais assustador.
Os habitantes acreditavam sinceramente que estavam certos. Não perseguiam o visitante por maldade.
Perseguiam porque toda a sociedade havia construído uma “verdade coletiva” onde a realidade era considerada uma ameaça.
Quantas vezes fazemos exatamente isso?
Quem denuncia desperdícios é chamado de…. pessimista.
Quem critica privilégios é acusado de….
radical.
Quem cobra responsabilidade fiscal é…..
tachado de insensível.
Quem exige justiça é visto como….
inconveniente.
Quem pede honestidade recebe o conselho de… “aceitar que política é assim mesmo”.
A verdade deixa de ser examinada.
Passa apenas a ser classificada conforme a conveniência.
Vivemos uma época curiosa.
Nunca houve tanta informação.
Nunca foi tão fácil consultar documentos públicos.
Nunca foi tão simples comparar dados.
Nunca tivemos tantos meios para conhecer os fatos.
Mesmo assim, cresce o número daqueles que preferem apenas acreditar.
Não investigam.
Não questionam.
Não confrontam.
Escolhem apenas o grupo ao qual desejam pertencer.
É uma cegueira voluntária.
Muito mais perigosa do que aquela imaginada por Wells.
Porque os cegos do conto não tinham escolha.
Nós temos.
O mais inquietante, entretanto, não é a corrupção.
Nem o desperdício.
Nem os privilégios.
Todos esses males existem em praticamente todas as sociedades.
O que realmente ameaça uma democracia é quando o cidadão deixa de sentir indignação.
A corrupção sobrevive menos pela inteligência dos corruptos do que pelo cansaço dos honestos.
O abuso do poder cresce menos pela força dos governantes do que pelo silêncio dos governados.
Nenhum poder se torna absoluto sozinho.
Sempre precisa da colaboração da apatia.
Há uma frase silenciosa que parece ecoar em muitas conversas de esquina:
“Não adianta fazer nada.”
Talvez essa seja a maior vitória de qualquer sistema que deseje permanecer intocado.
Não precisa convencer o povo.
Basta cansá-lo.
Basta fazê-lo acreditar que toda luta é inútil.
Que toda denúncia será esquecida.
Que toda eleição será igual.
Que toda esperança é ingenuidade.
Nesse momento, instala-se o verdadeiro: País dos Cegos.
Não porque ninguém veja.
Mas porque ninguém mais acredita que vale a pena olhar.
Wells termina sua narrativa mostrando que o homem capaz de enxergar precisa fugir para não perder os próprios olhos.
É uma metáfora poderosa.
Há épocas em que conservar a lucidez exige distância.
Exige coragem.
Exige disposição para permanecer fiel aos fatos quando todos preferem as versões confortáveis.
Talvez seja essa a missão permanente de qualquer cidadão.
Não arrancar os olhos de quem vê.
Nem aceitar que lhe arranquem os seus.
Porque uma democracia não morre apenas quando desaparece a liberdade.
Ela começa a morrer muito antes.
Morre quando desaparece o espanto.
Morre quando o escândalo se transforma em rotina.
Morre quando a mentira deixa de causar vergonha.
Morre quando a consciência troca a verdade pelo conforto.
No fim das contas, Wells nunca escreveu sobre olhos.
Escreveu sobre consciência.
E talvez o verdadeiro País dos Cegos não seja um vale escondido entre montanhas.
Talvez seja qualquer nação onde milhões de pessoas ainda possuam visão… mas tenham desistido de enxergar.

Veja também:  O Valor de Uma Mentira
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