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A Mulher Meio Grávida

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Sandra Boschilia
Sandra Boschilia
Sou Advogada, Operadora do Direito e Jornalista pelas Faculdades Metropolitanas Unidas e Universidade Nove de Julho. Coordenadora para Assuntos Institucionais e Assessoria de imprensa do Instituto Pro Cidadania em prol das Pessoas com Deficiência. Palestrante. Escritora e Autora de Romances Históricos e Biografias. Livros de poesia e arte premiados no Sul do Brasil. Meta: Informar e Resgatar boas memórias do Esporte. Sonhar é o Objetivo e Conquistar uma Certeza.

Conheci uma mulher meio grávida.
Pelo menos foi o que me disseram.
Confesso que estranhei.
Afinal, durante toda a minha vida aprendi que certas condições não admitem frações.
Ou se está grávida ou não se está.
Não existe um bebê pela metade, uma gestação parcial ou um nascimento em prestações.
Mas insistiram.
Vivemos novos tempos, disseram.
Tempos modernos.
Tempos flexíveis.
Tempos em que a lógica precisa acompanhar as conveniências.
Observei melhor e comecei a perceber que talvez a mulher meio grávida não fosse uma pessoa.
Talvez fosse uma época.
Uma época inteira.
Hoje existem verdades pela metade.
Honestidades pela metade.
Indignações pela metade.
Memórias pela metade.
Existem políticos que nunca pertenceram aos partidos aos quais dedicaram décadas de suas vidas.
Governantes que jamais participaram das decisões que assinaram.
Ministros que condenam os resultados de políticas que ajudaram a construir.
Autoridades que descobrem subitamente os problemas que ignoraram quando tinham a caneta nas mãos.
E fazem isso com admirável serenidade.
Como se os arquivos não existissem.
Como se os discursos não tivessem sido gravados.
Como se a história pudesse ser apagada com a facilidade de uma postagem deletada.
Vivemos o tempo da amnésia seletiva.
O cidadão assiste.
Escuta alguém condenar aquilo que defendia ontem.
Escuta alguém defender aquilo que condenava anteontem.
Escuta promessas recicladas com novas embalagens.
E, em muitos casos, aceita tudo com a naturalidade de quem observa a previsão do tempo.
Talvez porque a verdade completa seja pesada.
Exija reflexão.
Exija memória.
Exija coerência.
As meias verdades são mais confortáveis.
Cabem melhor nos discursos.
Produzem menos atritos.
Permitem que todos estejam certos ao mesmo tempo.
Ou errados sem consequências.
A mulher meio grávida tornou-se símbolo nacional.
Ela aparece em toda parte.
Nos debates.
Nas manchetes.
Nas redes sociais.
Nos palanques.
Nos comentários de esquina.
Ela é a prima próxima do cidadão meio informado.
Daquele que lê apenas o título.
Daquele que compartilha antes de compreender.
Daquele que escolhe primeiro o lado e depois procura os fatos.
Ela é irmã do eleitor meio atento.
Que exige soluções imediatas para problemas que levou décadas para ignorar.
Que sonha com heróis enquanto desconfia de instituições.
Que espera sempre o próximo salvador desembarcar do último trem da esperança.
Porque o herói continua chegando.
Sempre chega.
A cada eleição.
A cada crise.
A cada escândalo.
Desce do trem envolto em promessas.
Acenando para multidões cansadas.
Jurando que desta vez será diferente.
Jurando que encontrou o atalho para a prosperidade, para a honestidade, para a redenção nacional.
E a multidão acredita.
Não porque seja ingênua.
Mas porque a esperança é uma necessidade humana.
O problema começa quando a esperança substitui a responsabilidade.
Quando o cidadão deixa de ser protagonista para tornar-se espectador.
Quando prefere aguardar o herói a fiscalizar o representante.
Quando troca a memória pela torcida.
Nesse instante nasce a mulher meio grávida.
Aquela criatura impossível.
Aquela impossibilidade lógica.
Aquela contradição ambulante que todos fingem não perceber.
E assim seguimos.
Habitantes de uma república onde alguns negam o que fizeram.
Outros esquecem o que disseram.
Muitos acreditam no que desejam.
E quase ninguém parece disposto a perguntar o óbvio.
Porque certas coisas continuam sendo inteiras.
A verdade é inteira.
A mentira também.
A responsabilidade é inteira.
A omissão igualmente.
E, apesar de todos os esforços da nossa época para negociar com a realidade, permanece um fato teimoso:
Ninguém jamais esteve meio grávido.
Assim como ninguém jamais foi meio responsável pela história que ajudou a construir.

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