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A desconexão silenciosa que corrói vínculos

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Ligia Silva
Ligia Silva
Sou Psicóloga, Pedagoga e Instrutora de Programa de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness (MBSR) pela Universidade Federal de São Paulo, especialista em Gestão Empresarial, com mestrado em Psicologia e Saúde pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto/SP. Coautora do Best Seller “Quem manda na minha vida sou eu”, coordenadora do Livro “A coragem de viver quem você é” e colunista do @portaldoandreoli. Sou cofundadora da Arcos – Associação e Rede de Cooperação Social, um movimento de trabalho em rede, que apoia mais de 40 organizações sociais de Catanduva/SP e região e cofundadora do movimento Humanidade Compartilhada. Minhas pesquisas foram focadas na presença de burnout, qualidade de vida e consciência plena de professores e gestores de empresas, verificando o impacto do programa de redução de estresse baseado em mindfulness. Atualmente sou Coordenadora de Projeto Educacionais no Senac SP, palestrante e Facilitadora de Programas de Redução de Estresse, promovendo acolhimento, saúde e qualidade de vida.
Vivemos uma era de excessos, de estímulos, de escolhas, de expectativas. Paradoxalmente, quanto mais temos à disposição, menos satisfeitos parecemos estar. Há uma inquietação constante, quase um ruído de fundo, que nos impede de repousar no que já existe. E, no meio disso tudo, algo essencial vem se perdendo: a nossa capacidade de nos conectar de verdade.
Vivemos em um tempo em que nada é suficiente. Não basta ser amado, tem que ser do seu jeito, no seu tempo.
Não basta estar presente, se a relação não traz algo diferente o tempo todo, já parece pouco.
As idealizações e romantizações comprometeram nossa capacidade de valorizar o que é real, o que realmente tem valor.
É como se tudo precisasse ser extraordinário o tempo todo, ter brilho, ter drama, ter um enredo.
E pra piorar este cenário, vivemos cercados de um cardápio infinito de possibilidades. Diferente, mais atraente, mais bonito, mais legal, mais inteligente…
E quanto mais opções, mais difícil de escolher, consequentemente mais fácil de descartar.
A crença de que sempre existe algo melhor logo ali, ao alcance de um próximo clique, tem fragilizado relações que, na verdade, só precisavam de presença, tempo e disposição para aprofundar.
E assim, vai se perdendo o essencial a procura do impossível.
Esse retrato, tão direto quanto incômodo, escancara uma realidade psíquica contemporânea: estamos cada vez mais exigentes, mas cada vez menos disponíveis. Queremos relações que atendam às nossas expectativas mais idealizadas, mas não necessariamente estamos dispostos a sustentar o compromisso que qualquer vínculo real exige.
Do ponto de vista psicológico, isso não é por acaso. Vivemos imersos em uma cultura da comparação e da performance, onde tudo parece substituível e constantemente melhorável. As redes sociais, por exemplo, não apenas ampliam nossas referências, mas também distorcem o que entendemos como “normal”. Passamos a desejar experiências intensas o tempo todo, relações sem falhas, conexões sem frustrações, algo que simplesmente não existe na vida real.
E é justamente aí que começa a ruptura.
Porque vínculos verdadeiros não se constroem no auge da emoção, mas na constância do cotidiano. Eles exigem repetição, presença, paciência. Exigem atravessar momentos sem graça, silêncios desconfortáveis, desalinhamentos inevitáveis. Mas, em um mundo que nos condiciona a buscar estímulo imediato, qualquer sinal de imperfeição pode ser interpretado como falta de valor.
Assim, trocamos profundidade por novidade.
Desistimos rápido demais.
Descartamos antes de compreender.
A dificuldade de se comprometer hoje não está apenas ligada ao medo de errar, mas também ao medo de “perder algo melhor”. É a famosa angústia de escolha: quando tudo parece possível, nada parece suficiente. E, nessa lógica, o compromisso passa a ser visto quase como uma limitação, quando, na verdade, é ele que possibilita a construção de sentido.
Comprometer-se é, antes de tudo, uma escolha consciente de permanecer. Não por falta de opção, mas por decisão. É olhar para o que existe e decidir cultivar, mesmo sabendo que não será perfeito.
A falta de conexão que tanto sentimos não nasce da ausência de pessoas, mas da superficialidade com que nos relacionamos, inclusive conosco. Estamos pouco presentes, pouco inteiros, pouco disponíveis. Queremos receber, mas nem sempre sabemos sustentar o dar.
Talvez o convite mais urgente seja resgatar o valor do simples. Do que não é espetacular, mas é verdadeiro. Do que não é intenso o tempo todo, mas é constante. Do que não atende a todas as expectativas, mas é suficiente para ser vivido.
Porque, no fim, conexão não é sobre encontrar algo extraordinário, é sobre estar verdadeiramente disponível para o que é real.
E isso, hoje, talvez seja uma das formas mais profundas de compromisso.
Veja também:  Ignore o desnecessário, crie um novo hábito e tenha Saúde Mental
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