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Desviar de quem você é significa adoecer

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Manuela Mendez
Manuela Mendez
Sou pós-graduada em Psicanálise, Psicoterapia e Psicopedagogia, com cursos de aperfeiçoamento pela Escola Lacaniana do Rio de Janeiro. Atuo como terapeuta psicanalítica com escuta orientada pela teoria lacaniana. Sou colunista no Mundev, contribuindo com conteúdos voltados ao desenvolvimento humano e saúde mental. Acredito que palavras e ideias podem mudar o mundo.

Vivemos em uma época em que ser nós mesmos parece uma tarefa cada vez mais complexa. Desde cedo, aprendemos a moldar o que mostramos ao mundo: controlamos o tom da voz, o jeito de vestir, as opiniões que compartilhamos. A vida social se tornou um espelho distorcido, onde buscamos a aprovação do outro e, aos poucos, perdemos a nitidez do reflexo que realmente nos pertence.

Jung nos lembra que desviar de quem somos é o início do adoecimento psíquico. Quando a alma é silenciada, ela encontra outras formas de se expressar: pelo corpo, pela ansiedade, pela apatia, pela insônia. O sintoma se torna a linguagem do que não pôde ser dito.

Lacan aprofunda esse olhar ao afirmar que o sujeito está dividido entre o que é e o que imagina ser para o Outro. Desde o nascimento, nossa identidade se constitui em relação ao olhar alheio. Passamos a nos ver a partir desse espelho simbólico e, muitas vezes, confundimos o desejo do Outro com o nosso próprio. É nesse ponto que o desvio começa.

Quando vivemos apenas para corresponder a expectativas, nos afastamos do que nos causa desejo, e esse afastamento é, em si, uma forma de adoecimento. Lacan diria que o sujeito, ao negar o seu desejo, perde o acesso à sua verdade inconsciente. A angústia, então, surge como sinal de que algo em nós foi deixado de lado.

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A saúde mental, nesse sentido, não está em eliminar o conflito, mas em sustentá-lo. É na tensão entre o eu ideal — aquele que acreditamos que deveríamos ser — e o sujeito desejante — aquele que pulsa por trás das defesas — que se dá o movimento de cura. Reencontrar-se é permitir-se o risco de ser, mesmo sem garantias.

Talvez adoecer, como disse Jung, seja apenas o modo que o inconsciente encontra de nos chamar de volta. Lacan completaria: é o retorno do que foi recalcado, a irrupção do sujeito que insiste em existir, mesmo quando tentamos calá-lo.

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