Vivemos em uma época em que ser nós mesmos parece uma tarefa cada vez mais complexa. Desde cedo, aprendemos a moldar o que mostramos ao mundo: controlamos o tom da voz, o jeito de vestir, as opiniões que compartilhamos. A vida social se tornou um espelho distorcido, onde buscamos a aprovação do outro e, aos poucos, perdemos a nitidez do reflexo que realmente nos pertence.
Jung nos lembra que desviar de quem somos é o início do adoecimento psíquico. Quando a alma é silenciada, ela encontra outras formas de se expressar: pelo corpo, pela ansiedade, pela apatia, pela insônia. O sintoma se torna a linguagem do que não pôde ser dito.
Lacan aprofunda esse olhar ao afirmar que o sujeito está dividido entre o que é e o que imagina ser para o Outro. Desde o nascimento, nossa identidade se constitui em relação ao olhar alheio. Passamos a nos ver a partir desse espelho simbólico e, muitas vezes, confundimos o desejo do Outro com o nosso próprio. É nesse ponto que o desvio começa.
Quando vivemos apenas para corresponder a expectativas, nos afastamos do que nos causa desejo, e esse afastamento é, em si, uma forma de adoecimento. Lacan diria que o sujeito, ao negar o seu desejo, perde o acesso à sua verdade inconsciente. A angústia, então, surge como sinal de que algo em nós foi deixado de lado.
A saúde mental, nesse sentido, não está em eliminar o conflito, mas em sustentá-lo. É na tensão entre o eu ideal — aquele que acreditamos que deveríamos ser — e o sujeito desejante — aquele que pulsa por trás das defesas — que se dá o movimento de cura. Reencontrar-se é permitir-se o risco de ser, mesmo sem garantias.
Talvez adoecer, como disse Jung, seja apenas o modo que o inconsciente encontra de nos chamar de volta. Lacan completaria: é o retorno do que foi recalcado, a irrupção do sujeito que insiste em existir, mesmo quando tentamos calá-lo.




