Há um descanso que não é físico.
É o repouso que nasce quando deixamos de buscar aprovação no olhar alheio.
Desde cedo, aprendemos a existir a partir do olhar do Outro — esse Outro que, para Lacan, é mais do que uma pessoa: é o lugar simbólico de onde recebemos linguagem, reconhecimento e desejo. É o espelho no qual tentamos nos ver, acreditando que só ali seremos alguém.
Mas viver preso a esse olhar é habitar o imaginário — o campo das imagens, das comparações, dos reflexos distorcidos. É tentar ser aquilo que o Outro espera, e não o que de fato se é.
E quando o olhar do Outro muda, nós desmoronamos, como se nossa existência dependesse dessa validação.
Descansar na certeza de que não somos feitos do que os outros pensam de nós é, então, um ato de separação simbólica.
É o momento em que o sujeito começa a se reconhecer não mais como objeto do desejo do Outro, mas como sujeito do próprio desejo.
Esse descanso não vem fácil.
Ele pede que atravessemos o espelho — que deixemos de ser apenas imagem e nos tornemos palavra, corpo e falta.
Lacan dizia que o sujeito é o que uma falta representa para outra falta. Ou seja, somos feitos de incompletude, não de aprovação.
Quando paramos de medir nosso valor pela opinião alheia, algo se pacifica.
Não porque deixamos de ser afetados, mas porque entendemos que o olhar do Outro sempre será incompleto — e que é nesse vazio que podemos respirar.
O verdadeiro descanso vem quando aceitamos que não há espelho que nos traduza por inteiro.
Quando nos libertamos da tentativa de sermos lidos e passamos a nos escutar.
É aí que o silêncio interno deixa de ser ausência e se torna presença.
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Por Manuela Méndez
Caminhos da Mente




