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O Porquê que nos Move: Uma Reflexão sobre Sentido e Reveses

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Manuela Mendez
Manuela Mendez
Sou pós-graduada em Psicanálise, Psicoterapia e Psicopedagogia, com cursos de aperfeiçoamento pela Escola Lacaniana do Rio de Janeiro. Atuo como terapeuta psicanalítica com escuta orientada pela teoria lacaniana. Sou colunista no Mundev, contribuindo com conteúdos voltados ao desenvolvimento humano e saúde mental. Acredito que palavras e ideias podem mudar o mundo.

“Se tens por que viver, não importam os reveses.” — Nietzsche

Nietzsche condensa, em poucas palavras, uma das maiores buscas humanas: encontrar sentido. Ter um porquê é como possuir uma bússola íntima — não elimina as tempestades, mas nos dá direção para atravessá-las. E esse porquê não se encontra apenas na filosofia: ele se desdobra na literatura, na arte e na música, que são expressões da resistência humana diante do sofrimento.

Na literatura, encontramos personagens que desafiam a lógica dos reveses. Em Victor Hugo, Jean Valjean passa pela prisão, pela perseguição, pela perda, mas se sustenta na ideia de redenção e cuidado com o próximo. Em Clarice Lispector, os porquês são muitas vezes sutis — o simples gesto de sentir a vida pulsar já sustenta a existência. Ler é descobrir que cada dor narrada se converte em testemunho, e que o sentido pode ser múltiplo: o amor, a fé, a arte, ou mesmo o simples ato de estar vivo.

Na arte, o porquê se pinta em traços que desafiam a lógica da dor. Caravaggio traz luz à sombra, mostrando que até o mais sombrio pode ser iluminado. Picasso, em “Guernica”, transforma a destruição da guerra em um grito visual que não deixa esquecer: o revés se torna memória e denúncia. A pintura revela que o sofrimento não precisa ser silenciado — pode ganhar forma, cor, textura. E quando ganha, torna-se símbolo de sobrevivência, um convite para continuar.

Veja também:  O propósito que nos atravessa

Na música, a frase de Nietzsche ganha corpo sonoro. Pense em Bach, cuja espiritualidade atravessa cada compasso, mesmo em tempos conturbados. Pense em Chico Buarque, que transformou a dor política em canções que sustentaram gerações inteiras. Ou ainda em Billie Holiday, cuja voz carregava não apenas melodia, mas cicatrizes. A música é talvez o mais imediato dos porquês: uma batida, uma harmonia, um refrão podem sustentar um coração cansado quando as palavras já não alcançam.

Assim, o que Nietzsche nos lembra é que o porquê não precisa ser grandioso. Ele pode estar em escrever uma frase, em observar uma obra, em ouvir uma canção. São esses pontos de apoio que impedem os reveses de nos esmagarem. Ter um porquê é escolher transformar a vida em narrativa, em imagem, em melodia — e, assim, a dor deixa de ser apenas peso, tornando-se também expressão.

No fim, cada um encontra o seu porquê onde ressoa mais fundo. Pode ser uma pessoa, uma ideia, uma fé, uma prática. A filosofia nos oferece a pergunta; a literatura, a arte e a música nos oferecem respostas múltiplas. E cada uma delas reafirma: quando o sentido se mantém, os reveses não são o fim, mas apenas parte da trama que nos ensina a continuar.

Para maiores reflexões, acompanhe em: @psicanalistamanuela

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