Eu cheguei ao final da década de 80 com 15 anos completos. Sou de um tempo onde ainda qualquer jovem se envolver com trabalho era visto como algo relevante e que denotava caráter. E esse caráter tinha um quê de coletivo. Meus amigos de escola também dividiam comigo essa realidade. Alguns eram filhos de mecânicos e passavam meio turno lavando peças, limpando oficinas e ajudando a carregar blocos de motores enquanto aprendiam a profissão dos pais.
Outros eram filhos de chacareiros e passavam um bom tempo entre hortas e cuidados de pequenos animais; galinhas, patos, porcos para um ou dois dias na semana comercializar nas feiras de ruas de Maringá, onde eu nasci.
Tenho outros amigos que eram filhos de “vendeiros”; donos de vendas, um tipo de mini mercado comum do interior no sul do país que conta com um extenso balcão próximo a entrada e dali atende quem chega para comprar uma linguiça cabo de relho, uma dúzia de ovos ou mesmo tomar uma Jamel.
Na igreja onde passei grande parte de minha infância, o pastor era contador e mantinha um escritório com uma boa clientela e assim todos os seus filhos e mais alguns agregados seguiram por esse caminho já desde muito jovens.
Em contrapartida aos citados acima, tínhamos, quando ainda na João de Faria Pioli, escola onde estudei várias séries, as frutas podres.
Geralmente aqueles mais “modernos” que fumavam, tinham tatuagens, eram descolados. Tão descolados que alguns saíram para um final de semana para conseguir um “dinheiro fácil” e na segunda apareceram no plantão policial. Nem todos com vida.
E muitos desses que sobreviveram ainda hoje, quando mui raramente os encontro, ainda estão ressentidos. Ainda olham para o passado procurando em outros a culpa pelo caminho que tomaram.
Por incrível que pareça eu mesmo já alimentei algo assim. Talvez por ser humano, demasiado humano.
Mas como sempre tem “mas” eu tive, segundo alguns, sorte.
Não! Não tive! Tive coragem. Coragem de sair. Do sistema. Da acomodação.
Eu caí na estrada!
Literalmente.
Andei por um pedacinho do país, pisei em mais de 300 cidades e passei por 10 capitais. Andei. Ando até hoje.
Andarilho.
Praticamente minha identidade.
E li.
Livros, crônicas, contos, jornais, artigos, ensaios…
E li.
O mundo.
O meu mundo observável.
E assim, escolhi.
Deixei o ressentimento e avancei. Com ajuda, é certo. Muita ajuda, muito apoio.
E traquejo. Lábia. Não aquela lábia nociva, mal intencionada. Nunca.
Ainda sou o menino em cima da laje, relendo pela enesima vez meu exemplar do Seleções. Ainda tenho os traços do menino no banco da igreja agarrado com sua bíblia imaginando cada cena dos chamados heróis da fé. Ainda permanece o garoto franzino, atravessando entre caminhões nas filas das cooperativas de grãos para vender doces e salgados.
Algo que vem de longe e permaneceu.
Caráter.
O mesmo usado nas andanças.
Uma vez, no interior de Goiás, pela estrada depois de uma cidade chamada Formosa, cheguei a um posto de gasolina que tinha junto um restaurante. Era próximo ao almoço. Eu estava com fome. Mochila nas costas, pés doloridos.
Avancei até o balcão e ao localizar quem deveria ser o dono ali ofereci algum serviço em troca de refeição. Limpar uma calha, os banheiros ou outro serviço que ele precisasse. Disse não. Não precisava de nada disso e perguntou se além disso eu não trabalhava em outra coisa de onde quer que eu tivesse saído.
Quem me conhece sabe que essencialmente sou desenhista. Modéstia, que não tenho, à parte, dos bons.
Ele duvidou.
Ato seguinte puxou um pedaço daqueles rolos de papel de embrulho que ficam em balcões e junto uma caneta me desafiou.
” Se você for mesmo desenhista e fizer uma águia aqui nesse papel eu te dou um lanche e um refrigerante.”
Perdeu!
Claro que perdeu.
E mais do que eu desenhar com sucesso, o povo em volta que ia chegando começou a admirar. Alguém fez uma fofoca; ele está desenhando em troca de um lanche.
Seguiu-se uma pequena comoção.
“Ah, é? Pois eu também vou dar um salgado.”
Outro deixou mais um e um refrigerante. Outros deixaram dinheiro. Moedas. Pequenas quantias enquanto viam uma folha em branco dar lugar aos traços de uma portentosa ave de asas abertas, bico recurvo, garras afiadas e mais alguns detalhes.
Premiado, e bem premiado pelo esforço.
Pela capacidade.
Por trabalhar.
E, em pleno 2026 chegamos ao ápice do ressentimento em Pindorama.
Chegamos ao choro, à lamúria de quem nada produz, nada oferta de relevante, nada tem de construtivo mas se vêem como baluartes da indignação por um empresário de sucesso acumular uma riqueza financeira recorde.
Gritam aos quatro ventos que isso aumenta a injustiça social. Gritam que isso não pode ser aceito. Que é preciso destruir o acúmulo de capital.
Enquanto isso estes mesmos ganham, do povo que dizem defender, cifras exorbitantes, benesses sem fim, penduricalhos abusivos, 15 salários por ano, com direito a duas férias.
Com o nosso capital.
Com a total falta de caráter deles.
São bandidos. Bandidos ressentidos.
Bandidos que estavam lá na época da escola, fazendo escolhas ruins. Que não foram trabalhar com os pais. Que não foram carregar caixas na entrada dos mercados para ganhar uns trocados. Que nunca tiveram coragem e determinação para empurrar um carrinho de sorvete.
Eles são “melhores”. Não precisaram disso.
Mas convenceram um povo ressentido de que iriam usar essa “dor” que eles sentem pelos desfavorecidos para lutar por dias melhores.
Para eles antes, é claro.
E seguem desmerecendo quem trabalha. Seguem desmerecendo quem produz. Seguem desmerecendo quem paga impostos e mais impostos que eles irão, na mão grande, se apropriar como se fossem deles.
Seguem latindo a caravana que passa rumo à riqueza, ao progresso.
Latindo ressentimentos para ouvidos de derrotados. E o pior, pois sempre piora, meus amados seis leitores, convencem muita gente disso.
E sim, a riqueza sempre incomodou mais do que a pobreza. Principalmente quando se trata de riqueza alheia e estes ressentidos desgraçados não podem dela se apoderarem.
A pobreza, melhor ainda se for intelectual e se possível combinada com a de caráter, não incomoda. Ela ajuda a manter o curral sob domínio.
E eu, mesmo sabendo que tudo tende a piorar, assumo a responsabilidade de expor essa corja.
Sim! Tudo piora, mas não sem eu me posicionar contra.
Nós, Os Ricos.




